Caros internautas, sejam todos muito bem-vindos a este canal mais uma vez!
Hoje, quero falar sobre um assunto muito sério, que tem um significado especial para mim: a luta sindical, a defesa dos direitos sociais e a responsabilidade que temos diante do futuro dos trabalhadores e da democracia brasileira.
Sou professor desde 2002 e, ao longo dessa trajetória, acompanhei de perto as dificuldades enfrentadas pelos servidores públicos do nosso município. Lembro-me muito bem de um tempo em que ainda não tínhamos um sindicato organizado para defender os interesses da nossa categoria.
Naquela época, os gestores públicos, muitas vezes, agiam como bem entendiam. Servidores que contrariavam seus interesses ou não se submetiam às suas vontades podiam sofrer perseguições, transferências abusivas, assédio e até demissões arbitrárias, inclusive em situações envolvendo servidores concursados.
Faltava aos trabalhadores um instrumento coletivo de defesa. Muitos tinham medo de se posicionar, de questionar decisões administrativas e até mesmo de participar de reuniões. Em determinadas situações, servidores eram chamados à atenção pelos gestores e chegavam a sofrer ameaças por sua participação em movimentos de organização da categoria.
Foi nesse contexto que surgiu o sindicato. E, com ele, começou uma nova etapa na história dos servidores públicos de Pentecoste.
O sindicato passou a cumprir seu verdadeiro papel: defender os trabalhadores, reivindicar direitos, questionar arbitrariedades e enfrentar medidas que contrariassem os interesses da categoria. Quando necessário, também passou a se posicionar contra decisões de gestores públicos e projetos de poder que colocassem os direitos dos servidores em segundo plano.
Naturalmente, essa postura não agradou a todos.
O sindicato começou a ser visto por alguns como um problema. Os trabalhadores que se filiavam à entidade, participavam das assembleias ou assumiam responsabilidades na direção sindical passaram a enfrentar resistências e, em determinadas situações, perseguições.
Mas a história demonstrou que a organização coletiva era necessária.
A caminhada não foi fácil. As mudanças aconteceram lentamente, mas de maneira progressiva. Vieram as lutas, os enfrentamentos, as dificuldades e, também, as conquistas. Aos poucos, as arbitrariedades foram perdendo espaço, mais servidores começaram a se filiar, a participar das discussões e a compreender que não precisavam enfrentar seus problemas sozinhos.
O medo foi dando lugar à consciência de que um trabalhador isolado é mais vulnerável, mas uma categoria organizada tem muito mais força para lutar por seus direitos.
Hoje, temos orgulho de olhar para essa trajetória e reconhecer o que foi construído. O SINDSEP, Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Pentecoste, reúne quase 600 filiados. Esse número representa muito mais do que uma quantidade de pessoas: representa confiança, organização, resistência e uma história construída por homens e mulheres que compreenderam a importância da luta coletiva.
E é justamente por conhecer essa história que me preocupo com o momento que estamos vivendo.
O sindicato não pode se afastar de sua missão
Precisamos compreender que os sindicatos não surgiram por acaso. Historicamente, nasceram da necessidade de os trabalhadores se organizarem para conquistar melhores salários, condições dignas de trabalho, proteção social, respeito e participação na sociedade.
A luta sindical nunca esteve limitada à discussão de salários ou de questões administrativas. Ela também envolve cidadania, democracia, políticas públicas, previdência social, educação, saúde e a defesa dos direitos fundamentais dos trabalhadores.
Por isso, a política faz parte da vida sindical.
Não estou falando de transformar o sindicato em propriedade de um partido ou de obrigar seus filiados a votar em determinado candidato. Estou falando de compreender que as decisões políticas influenciam diretamente a vida dos trabalhadores.
As reformas trabalhistas e previdenciárias, as regras de aposentadoria, a política de valorização salarial, os investimentos em educação e saúde e a proteção dos direitos sociais são exemplos claros de como as decisões tomadas pelos governantes e pelos representantes eleitos afetam a nossa categoria.
Historicamente, o movimento sindical brasileiro tem mantido uma relação importante com as forças políticas progressistas, especialmente aquelas que defendem a inclusão social, a ampliação de direitos e a valorização do trabalho.
Isso não significa que todo candidato progressista esteja sempre certo ou que não deva ser criticado. Significa que precisamos analisar os projetos políticos, suas propostas e suas consequências para a sociedade, sobretudo para aqueles que vivem do próprio trabalho.
O compromisso do sindicato deve ser, antes de tudo, com os trabalhadores, seus direitos e sua dignidade.
O avanço da extrema direita e o risco do retrocesso social
Nos últimos anos, temos acompanhado o crescimento da extrema direita e a disseminação de discursos que questionam a importância das políticas públicas e da atuação do Estado na redução das desigualdades sociais.
Em linhas gerais, setores dessa corrente política defendem a redução da intervenção estatal na economia, a ampliação do espaço da iniciativa privada e mudanças nas políticas de proteção social. Existem diferenças entre os grupos e os candidatos, por isso cada proposta precisa ser examinada com responsabilidade.
O problema começa quando o discurso de liberdade econômica é utilizado para justificar a retirada de direitos, enfraquecer a proteção dos trabalhadores ou tratar as políticas sociais como se fossem obstáculos ao desenvolvimento do país.
Mais preocupante ainda é perceber trabalhadores assalariados defendendo propostas que podem prejudicar seus próprios direitos, sem avaliar suficientemente as consequências dessas escolhas.
É legítimo que cada cidadão tenha suas convicções políticas. A democracia garante a liberdade de escolha, e ninguém deve ser perseguido ou discriminado por causa do candidato em quem vota.
Entretanto, liberdade política também exige consciência, informação e responsabilidade. Não podemos abrir mão da capacidade de analisar criticamente os projetos apresentados por aqueles que desejam governar o país.
Precisamos perguntar: quais são as propostas para os trabalhadores? O que pensam sobre aposentadoria, salários, direitos trabalhistas, serviços públicos e políticas de inclusão social? Que consequências suas decisões podem trazer para as famílias brasileiras?
Essas perguntas não podem ser consideradas inconvenientes. Pelo contrário, são indispensáveis em uma sociedade democrática.
O silêncio dentro do sindicato é motivo de preocupação
É nesse ponto que chego a uma das minhas maiores preocupações.
O nosso sindicato reúne quase 600 filiados, trabalhadores que possuem histórias, opiniões e posicionamentos políticos diferentes. Entretanto, muitos deles compartilham uma realidade comum: dependem do trabalho e precisam de direitos, salários dignos, proteção social e serviços públicos de qualidade.
Por isso, considero preocupante qualquer situação em que o debate político dentro da entidade seja limitado para atender aos interesses de um pequeno grupo.
Não se trata de exigir unanimidade, impor uma ideologia ou impedir que alguém defenda o candidato de sua preferência. Trata-se de garantir que todos tenham o direito de falar, argumentar, questionar e apresentar suas ideias.
Se alguém defende determinado candidato, deve ter liberdade para explicar suas razões. Da mesma forma, quem discorda precisa ter liberdade para apresentar argumentos contrários.
O que não podemos aceitar é que o receio de desagradar a determinados grupos ou candidatos se transforme em motivo para evitar discussões importantes.
Um sindicato não pode ter medo de debater política, porque as decisões políticas também determinam o futuro dos trabalhadores.
Se existem divergências entre os filiados, que elas sejam discutidas com respeito. Se existem dúvidas sobre as propostas de um candidato, que sejam esclarecidas. Se há discordâncias sobre o posicionamento da direção sindical, que sejam apresentadas e debatidas democraticamente.
O que não podemos fazer é confundir unidade com silêncio.
A unidade sindical não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que todos compreendam a importância de defender os interesses coletivos, respeitando as diferenças e as regras democráticas.
Quem conhece a história não pode ignorar os riscos do retrocesso
Não faz tanto tempo que os direitos dos trabalhadores foram colocados em discussão por meio de reformas que provocaram intensos debates na sociedade brasileira.
A reforma trabalhista e a reforma da Previdência, por exemplo, alteraram regras importantes para milhões de brasileiros. Seus defensores apresentaram argumentos relacionados à economia, ao emprego e à sustentabilidade fiscal. Seus críticos apontaram perdas de proteção, dificuldades para os trabalhadores e consequências sociais que precisavam ser consideradas.
Independentemente da avaliação que cada pessoa faça dessas medidas, uma coisa é inegável: as decisões políticas podem mudar profundamente a vida de quem trabalha.
Também conhecemos as dificuldades enfrentadas pelos servidores públicos quando não há valorização profissional, quando os direitos previstos em lei deixam de ser respeitados ou quando as reivindicações da categoria são tratadas com indiferença.
É por isso que precisamos acompanhar atentamente os discursos e as propostas dos candidatos, principalmente daqueles que pretendem conquistar cargos no Executivo e no Legislativo.
Hoje, os grupos de direita e extrema direita possuem presença expressiva no Congresso Nacional. Isso lhes confere capacidade de influenciar votações, aprovar mudanças legislativas e definir os rumos de importantes políticas públicas.
Diante desse cenário, precisamos ter clareza sobre o que está em jogo.
Não basta avaliar um candidato por sua popularidade, por seus discursos nas redes sociais ou por sua capacidade de mobilizar seguidores. É necessário conhecer suas propostas, seu histórico político, seus votos e as medidas que pretende apoiar.
Promessas eleitorais precisam ser confrontadas com ações concretas.
E isso vale para todos os candidatos, independentemente do partido ou da corrente ideológica a que pertençam.
O debate democrático é uma necessidade, não uma ameaça
Estamos vivendo um período em que a discussão política se torna ainda mais importante. As eleições despertam paixões, revelam diferenças e colocam em confronto diferentes projetos para o Brasil.
É natural que existam opiniões divergentes. O que não é natural, nem saudável para a democracia, é que as pessoas tenham medo de expressá-las.
Se alguém não concorda com determinado posicionamento político, tem todo o direito de apresentar argumentos contrários. Mas tentar impedir que o outro fale, simplesmente porque suas ideias incomodam, representa uma postura incompatível com o espírito democrático que devemos cultivar.
Ninguém é obrigado a concordar comigo. Da mesma forma, não aceito que o direito de discutir, questionar e defender ideias seja tratado como um problema.
A democracia não se fortalece quando todos repetem a mesma opinião. Ela se fortalece quando as diferenças podem ser expressas com liberdade, responsabilidade e respeito.
Por isso, defendo que o sindicato seja um espaço de debate aberto, no qual os trabalhadores possam discutir os projetos políticos que afetam suas vidas, sem intimidação, constrangimento ou imposição de silêncio.
A entidade não deve servir aos interesses eleitorais de uma pessoa, de um grupo ou de um candidato. Deve estar a serviço da categoria.
E quem ocupa uma função sindical precisa compreender que representar os trabalhadores significa, também, respeitar a pluralidade de opiniões e garantir espaço para a participação democrática.
Uma reflexão necessária para o presente e para o futuro
Faço essa reflexão porque conheço parte da história da luta sindical em nosso município. Sei das dificuldades que enfrentamos para construir uma entidade respeitada, capaz de defender os servidores e de enfrentar práticas que, durante muito tempo, alimentaram o medo e a submissão.
Não podemos esquecer de onde viemos.
Não podemos esquecer os trabalhadores que tiveram coragem de se organizar quando participar de uma reunião sindical era motivo de preocupação.
Não podemos esquecer aqueles que enfrentaram dificuldades para que hoje tivéssemos mais liberdade, mais organização e melhores condições de reivindicar nossos direitos.
E, sobretudo, não podemos permitir que a entidade construída com tanto esforço se afaste de sua missão fundamental.
Minha preocupação não é com a existência de opiniões diferentes. Isso faz parte da democracia. Minha preocupação é com a possibilidade de que interesses eleitorais, pressões políticas ou receios de determinados grupos impeçam o sindicato de cumprir seu papel de formação, conscientização e defesa dos trabalhadores.
Se não tivermos coragem de discutir os problemas de hoje, poderemos enfrentar dificuldades ainda maiores amanhã.
Por isso, precisamos conversar, estudar, analisar propostas e refletir sobre as consequências das nossas escolhas. Precisamos compreender que o voto é um direito individual, mas as decisões tomadas pelos eleitos afetam toda a sociedade.
Não devemos votar apenas por simpatia, amizade, influência de terceiros ou identificação com um discurso. Precisamos avaliar o que cada candidato representa e o que suas propostas significam para a nossa vida, para a nossa família e para o futuro dos trabalhadores brasileiros.
A consciência política é uma das ferramentas mais importantes de quem luta por direitos.
Finalizo reafirmando minha convicção de que o sindicato deve permanecer fiel à sua história: independente, combativo, democrático e comprometido com os interesses dos servidores públicos.
Um sindicato forte não é aquele em que todos concordam com tudo. É aquele em que os trabalhadores têm liberdade para participar, questionar, discordar e construir coletivamente os caminhos da luta.
Não podemos trocar a liberdade de debate pelo silêncio, nem a defesa dos direitos pela conveniência eleitoral.
A história nos ensinou que o silêncio imposto nunca foi um bom aliado dos trabalhadores. Foi justamente a coragem de falar, denunciar injustiças e lutar coletivamente que permitiu a conquista de muitos dos direitos que temos hoje.
Por isso, continuarei defendendo o direito de debater, a liberdade de expressão, a democracia e a valorização dos trabalhadores.
Porque os direitos não se preservam sozinhos. Eles precisam ser conhecidos, defendidos e, quando necessário, reconquistados.
Quem conhece a história da luta sindical sabe que não podemos ter medo de discutir o presente, porque é no presente que começamos a construir o futuro.
Um grande abraço a todos. E que possamos seguir na luta, sempre com consciência, coragem, responsabilidade e compromisso com a democracia e com os direitos dos trabalhadores.
Professor Valdeni Cruz
