terça-feira, 26 de julho de 2016

Os inocentes do silêncio: conveniências políticas e perversões dissimuladas


"Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida publica mais querem."
- Bertolt Brecht

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Tornou-se comum ouvir da maioria das pessoas em pequenas cidades do país: "eu não gosto de política", ou o que é pior, "não gosto de falar nada sobre isso", ou ainda mais "se a gente fala de política ou de quem a gente quer votar ou votou, é um Deus nos acuda... Se o candidato da gente perde, quem venceu persegue a gente".
O que deveria ser uma trivialidade tornou-se um imaginário insuflado de certa dissimulação patológica que nos diz muito sobre a subjetividade e a realidade sociocultural desses municípios.
É importante que se diga, a priori, que essa situação imaginária imperativa é exatamente causada por essas mesmas pessoas que dizem tais coisas e assim se posicionam. Não digo que esse imaginário não possa ser verdade. Que de fato não haja "perseguições", principalmente em municípios de pequenos portes populacionais e marcados pela "geopolítica do toma-lá-dá-cá".
O mais preocupante é esse fenômeno ser retroalimentado tanto por alguns "politiqueiros candidatos eternos" quanto pelos "eleitores interesseiros". Ou seja, conforme os ditados populares "um gambá cheira o outro" e "dai a César o que é de César" se aplicam nessas produções subjetivas sociais.
Quando digo Política, não estou dizendo apenas nomes de candidatos ou de partidos políticos, mas de participação ativa e cidadã nas discussões de temas relevantes para toda a população desses municípios, através do engajamento consciente, livre e responsável. Diferente, portanto, das políticas predominantes dos interesses recíprocos narcisistas e grupais. A polis não deve ser uma galeria de espelhos onde os atores políticos e apenas uma parcela da população se completem de forma especular, eliminando os outros que não aparecem no "meu espelho egóico", pois Política é também estar sempre atento à coisa publica e à igualdade social na qual todos, sem exceção, devem estar inseridos.
Nessa onda epidêmica de corrupção que avassala grande parte das instituições, independente de discursos ideológicos "limpinhos e cheirosos", lancemos os nossos olhos para a nossa história presente e passada para verificar que a corrupção nada mais é do que uma impostura perversa.
É uma negação das regras e da moral universal (Kant), corrompendo a Democracia e o Estado.
Digo mais, é um desmentido da Lei, é a negação da negação (do proibido) haja vista que a perversão tem conhecimento da Lei (sabe o que não pode) exatamente para negá-la, tipo: "eu sei que está errado, mas eu vou fazer assim mesmo, todo mundo faz". Eis o gozo perverso. Torna-se uma fixação repetitiva, conforme nos ensina a Psicanálise.
Quero dizer o seguinte: todo mundo traz em si traços perversos em certos níveis, alguns, estruturas perversas. Ninguém está imune ao germe da corrupção. Quando digo que todos nós temos traços perversos (no caso, traços corruptos), não quero dizer que devemos exercê-los, ao contrário. Existem outras vias...
Segundo o genial Sigmund Freud (1856-1939), poucos conseguem sublimá-los, transformá-los num bem social. Ao invés de recalcá-los e dissimulá-los, seria uma dádiva desviá-los a trabalhos importantes para a coletividade. As palavras "eu não gosto de política", "eu não posso falar sobre isso senão eu perco meu emprego", "aqui em nossa cidade é assim que funciona", na verdade eu estou sendo um "covarde" que talvez seja a pior das perversões.
Por quê?
Porque assim procedendo, eu estou alimentando a mesma situação real, simbólica e imaginária que está aí, da qual eu não me canso de queixar. Não se pode esperar que apenas o Outro resolva as nossas questões, ou que tal candidato vai mudar isso se eu não me posicionar na polis, na vida.
Política é muito mais do que eleições, candidatos ou partidos!
É uma postura ética! Vez ou outra, assiste-se em diversos municípios brasileiros às "canetadas" da Lei no "jeitinho de fazer política".

Entretanto, a Lei é exercida por representantes que também não estão imunes ao vírus da corrupção. A impostura perversa só é pega, infelizmente, pela "caneta da Lei". Não obstante, onde há Lei, a sua inobservância também pode estar presente.
Já passou da hora que deixemos de exercer a Política Livre, desvencilhada de favores eleitoreiros, de apetites interesseiros de cargos e de vaidades nessa infindável galeria de "espelhos planos". É preciso se posicionar de forma mais atenta, pois todo discurso político, qualquer que seja, traz em seu bojo a ideologia na qual ele se assenta, qual seja: a de manter ou modificar o poder instituído, que aí está.
Esses mesmos discursos políticos ideológicos atravessam todas as nossas instituições: saúde, educação, religião.... Todo grupo político tem um líder, as ideias e o seu rebanho. Suas ideias são disseminadas no campo discursivo, muitas vezes, gogó abaixo, sem que se exerça pelo rebanho as reflexões necessárias.
Todo discurso político tem um único fim, inverter e produzir uma realidade para se sustentar ou conseguir o poder. Não há que se esperar os períodos eleitorais para o exercício Político reflexivo.
É preciso sair do estorvo do espelho, da relação especular com o outro supostamente igual a si. Os espelhos produzem apenas imagens, muitas vezes letais, pois eliminam as diferenças e tentam promover apenas a si mesmos.
Por uma certa suavidade e uma abertura do "só nós" para com o outro que não aparece na imagem do "nosso espelho". É preciso certa empatia funcional pragmática. Para muito além da fictícia "transparência" discursiva. É necessário produzir mais visibilidades políticas produtivas e desalienantes.
É preciso falar sim sobre política, enfiar mais simbólico no imaginário patológico, senão ficaremos sempre invisíveis e anulados pela perversão do Outro. Ficar nesse lugar doentio, é também uma forma de gozar, masoquista e mortal!
Cuidado com as imagens e os discursos forjados...
Fonte:http://www.brasil247.com/pt/colunistas/cassiovilelaprado/243199/Os-inocentes-do-sil%C3%AAncio-conveni%C3%AAncias-pol%C3%ADticas-e-pervers%C3%B5es-dissimuladas.htm

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